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Beto Colombo

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Aconselhamentos

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Querido leitor, hoje vamos falar sobre aconselhamentos.

Há anos recebo pessoas, principalmente empresários, que precisam tomar decisões e me pedem conselhos. Geralmente, no final de suas queixas, vem a pergunta: - O que devo fazer Beto? Se você estivesse no meu lugar, como agiria?

Antes da Filosofia Clínica eu até arriscava alguns palpites ou agendamentos que raramente davam certo. Principalmente aqueles que envolviam questões íntimas, coisas pessoais. É claro que fazia daquela forma porque acreditava que realmente estava ajudando.

Hoje tenho consciência que o aconselhamento pouco ou quase nada contribui para o engrandecimento do outro e procuro não cometer mais essa violência com meu semelhante. Para você que vive aconselhando e está confuso, já explico um pouco mais e melhor, mas antes quero contar uma das primeiras histórias, ou estória, sobre dar conselhos, que se tem registro. Ela vem lá da Grécia Antiga, os chamados Oráculos.

O mais famoso de todos era o Oráculo de Delfos, ao pé do Monte Parnaso, onde tive a oportunidade de conhecer em 2009 estudando filosofia. No Oráculo de Delfos, portanto, recorriam reis e generais antes de tomar decisões de vida e morte. E as sacerdotisas de Apolo revelavam suas profecias.

O Rei Creso de Lidea, ao perguntar à Sacerdotisa se ele deveria atacar os persas, recebeu o seguinte conselho: “Se você o fizer, destruirá um grande império”. Creso lançou-se à batalha sem entender que o império derrotado seria o dele. Essa é uma armadilha ao dar conselhos.

Quando aconselhamos, o fizemos a partir de nós, da nossa estrutura de pensamento, da nossa experiência e, às vezes, a interpretação, o significado pode ser entendido de forma equivocada. Mas não é só isso: há os que pedem conselhos de foro intimo e os que me pedem conselhos técnicos.

Para aqueles, os que me pedem conselhos de foro íntimo, a resposta quase sempre tem sido a mesma. “Não sei”. O “quase” é porque quando tenho a historicidade, às vezes e com muito cuidado, respeitando a sua estrutura de pensamento, me arrisco a sugerir algumas saídas. Quanto a estes, quando o assunto não é de foro íntimo e não envolve pessoas, com cuidado tenho dado algumas dicas com algum sucesso. 

Este critério para aconselhar vem da Filosofia. Martin Bubber, filósofo judeu nascido na Áustria, dá uma boa contribuição a respeito. Ele escreveu sobre Eu-Tu, onde dá a relação entre pessoas no espírito de servir as pessoas. Aqui falo por mim, que a melhor maneira de servir envolvendo conselhos pessoais de foro íntimo, sobre relações, a melhor resposta é calar-se ou então recomendar ajuda profissional. Já quando envolve o Eu-Isso, isto é, a relação se dá entre ser humano e coisas (aqui envolvendo questões técnicas) como por exemplo, um conselho sobre qual a melhor máquina a ser comprada. Neste caso pode sim ser aconselhado, desde que o conselheiro tenha domínio técnico. Mas ainda é perigoso, já que para algumas pessoas as coisas podem ser a extensão de seu próprio corpo. Um exemplo? Cito aquele jovem que cuida mais do seu carro turbinado, que vive acariciando em forma de polimento do que seu próprio corpo.

Já quando o aconselhamento envolve pessoas, fico com a frase escrita na entrada no portão do Oráculo e imortalizada por Sócrates: “sei que nada sei de tudo quanto sei”. Essa frase, para mim, deve representar nossa postura inicial. Sei que nada sei acerca da pessoa que está diante de mim. Não sabendo nada e ainda sem a historicidade, o melhor conselho é ouvir a pessoa, o seu desabafo, calar-se e encaminhá-la a um filósofo clínico ou outro profissional da área.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre aconselhamentos?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 20/09/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 21/09/2011. Leia novos artigos nesse espaço a partir de março de 2012.
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1 Comentários para "Aconselhamentos"

  • Albertina Manenti Silvestrini - 21/09/2011

    Amigo Beto, importante seu texto, pois vc consegue como sempre esplanar uma palavra com seus mais diversos sigmificados e as suas consequencias. Sou conciliadora e mediadora familiar sei o quanto um aconselhamento pode influenciar na vida de uma pessoa. Realmente aconselhar é algo extremamente delicado.

    Atenciosamenrte,

    Albertina

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