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Beto Colombo

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Caronas Existenciais

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Querido leitor, que você esteja bem! Hoje vamos refletir sobre caronas existenciais.

Há alguns meses, meu amigo Mhanoel, sua enteada Giúlia e eu fomos ao município de Praia Grande. Era um dia que chovia torrencialmente, mesmo assim, atendemos ao convite do prefeito Valcir Darós que, visionário, quer implantar o “Caminho dos Cannyons” na região. Desde que participou da palestra “O Caminho Imita a Vida” com o lançamento do livro, que fizemos há anos no município, o prefeito, que na época se quer era candidato, pensava na possibilidade de organizar um caminho nas proximidades. Beleza natural e calor humano não vão faltar neste acminho.

Mas, meu comentário como expus acima, não é sobre o “Caminho dos Cannyons”, o que poderei enfocar oportunamente. O foco hoje é sobre as caronas existenciais.

Após a reunião com o prefeito e membros da Secretaria de Turismo local, fui abordado, ainda na sala de espera do chefe do poder executivo local. Sua secretária pedia que desse uma carona à dona Luíza, moradora nas proximidades de Maracajá. Motivo: em julho, época de recesso escolar, não há ônibus depois do meio da tarde para qualquer outro município. “Só carona” disse-me a secretária. Carinhosamente, fizemos questão de trazê-la, afinal de contas, não custava nada, ainda chovia e fazia muito frio.

Nem deu tempo para eu esticar as mãos e oferecer uma bala, dona Luíza foi mais rápida ao reclamar da cidade: “Como pode uma cidade crescer sem ônibus? Eu não sei para que servem as lideranças, se nem disso cuidam”. Limpando o vidro um pouco embaçado e curtindo o adocicado da bala, ela ouviu a trilha musical que tocava no rádio do carro e comenta: “Como é que vocês conseguem ouvir esse tipo de programa de rádio? Por que tu não colocas uma música caipira? Eu gosto é de música caipira”. 

Asfalto, muitas vezes inundado pela água, seguíamos viagem nós três, agora em companhia da dona Luíza. O perigo era iminente, tanto que em São João do Sul tivemos que aguardar uns 20 minutos, tempo em que os policiais rodoviários coordenavam a retirada de um carro virado no acostamento. Enquanto esperávamos, ela ainda reclamou dos bancos aquecidos e, já na BR-101, pediu para parar para urinar. Que coisa não?

Alguma s pessoas são assim: entram em nossas vidas como caroneiras e, mesmo que inconscientes, podem influenciar sobremaneira nossas vidas. E ainda dizem: “É só uma carona bem rápida. Eu vou ficar quietinha como uma mala que você põe no porta-malas”.

Há caronas que são muito exigentes, ruins mesmo. Às vezes pensamos que vamos ter uma jornada cômoda por ter dado carona, como se a pessoa fosse uma mala e malas não falam. Há “malas” que falam, exigem, incomodam, começam a reclamar da estrada, do trajeto, que está quente, agora está muito frio, a música não é boa... Pare que eu quero descer. E antes que eu esqueça, foi ela quem pediu carona.

Você está contente com a sua história de vida? Você é, de fato, o que você queria ser? E se você descobrir que pegou carona na vida de alguém? Ficaria decepcionado? E se é você que deu carona e a carona agora começou a fazer exigência, tornou-se um peso, o que pensa fazer a respeito?  Pense comigo. Se depois de ouvir este artigo você resolver iniciar a jornada de retirada da máscara social, assumir que é um carona, e você agora resolve ser você mesmo, será que seu companheiro ou sua companheira vai aceitar numa boa? A boa noticia é que isso tem saída. 

Você não precisa se cristalizar nessa situação, se está vivendo um script escrito por outro e está incomodado com isso, se você está vivendo o discurso do outro talvez a saída seja quebrar o discurso, quebrar o script. Lembre-se que, geralmente, quebrar o script não é quebrar a vida, procure ajuda. Agora se isso não te incomoda e tua companhia não se importa ou até gosta de todo este movimento, vá em frente! Não há certo ou errado, para cada um é de um jeito.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre caronas existenciais?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 17/10/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 18/10/2011. Artigos inéditos serão publicados a partir de
março de 2013.
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