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Beto Colombo

Artigos

Cronos

Querido leitor e querida leitora, aceite o meu fraternal e caloroso abraço. Recentemente escrevi sobre o tempo, oportunidade que refletimos sobre os dois deuses, com “d” (minúsculo), o Cronos e o Kairos ou Kairós. Sobre este, me detive um artigo. Hoje vamos aprofundar o deus Cronos.

Como o próprio nome nos lembra, o deus Cronos é o cronômetro, o relógio, a lógica da matemática e dos números. Cálculos nos levam a uma vida calculada, muitas vezes previsível e metódica. A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro.

Para nossos dias, o senso comum diz ser o tempo um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de que a vida foge. Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novo começo.

Se o tempo é criança, como diz Heráclito, e da criança o reinado, faço um deslocamento longo: Lá na minha infância, lembro que nós blasfemávamos contra o tempo, hora quando ele demorava a passar na espera do Natal, hora quando queríamos jogar bola e Deus apagava a luz. Era como nós significávamos aqueles momentos quando o sol se punha. Cronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos, no meu tempo de menino, era nosso pior inimigo. Como no dizer de Ruben Alves: “O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado”.

Essa obsessão por aproveitar produtivamente cada minuto livre vem lá dos imigrantes Calvinistas que construíram os Estados Unidos da América e esses trouxeram de Renê Descartes que inspirou os escrito de Friedrich Taylor. Antes disso, o tempo era medido por tarefas; quem perguntasse a que horas um cidadão voltaria para casa, ouviria a seguinte resposta: “Assim que ele assentar cinco metros de muro”. Foram os protestantes os principais responsáveis pela inversão de tal lógica. O trabalhar passou a ser uma forma de louvar ao Senhor e o tempo ocioso virou ofensa moral, uma heresia. Assim, o tempo deixou de ser medido por tarefas realizadas; as tarefas é que passaram a ser medidas em tempo. A lógica se inverteu. É desse período a famosa frase de que “tempo é dinheiro”. A partir das ideias que ela veicula, tornamo-nos escravos dessa crença e inundamos nossas vidas com sequências de compromissos com mínimos intervalos.

Há um dizer no latim “tempus fugit”, ou seja, o tempo foge. Portanto “carpe diem”, aproveite o dia, ou colha o dia como um fruto que amanhã estará podre. Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio. No latim “Sapio” quer dizer “eu saboreio”. O sábio é um ”saboreador” da vida. A vida não é para ser medida é para ser saboreada, já nos alertavam os antigos latinos.

Algumas vezes devaneio em meus pensamentos sobre essa correria do mundo moderno e me sinto engaiolado e de alguma forma controlado por uma invenção do homem. Já estamos criando até mecanismo para amadurecer mais rápido algumas frutas, engordar mais rápido os animais para serem rapidamente devorados... O que estamos nos tornando? Onde vamos parar?

É assim como o tempo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o deus Cronos?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 20/11/2012 e no Jornal A Tribuna no dia 21/11/2012.

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