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Beto Colombo

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Dodói

Queridos leitores, paz. Nosso tema hoje é dodói. Isso mesmo: dodói.

Minha companheira Bany diz que os homens são muito “dodóis”. Talvez ela queira dizer que seu homem, no caso, eu, sou dodói. E é verdade, ela tem razão. E, confesso, às vezes sinto muitas dores: dor nas pernas quando caminho bastante, dor de cabeça, enfim, dor quando exagero no vinho, dores nos ombros quando passo horas escrevendo, dor de garganta e essa tem me perseguido desde criança, entre outras.

O primeiro contato que eu tive com a dor, que eu me lembre, foi ainda menino. Dor de dente, que coisa triste! Com o dente inchando, ia chorando e reclamando para minha mãe que me dava o único remédio que tínhamos em casa: Melhoral! Diga-se de passagem, que ela criou os 13 filhos com chás e melhoral. Está certo que tínhamos o Melhoral adulto e infantil. Às vezes ela variava, combinando melhoral infantil com chá de erva cidreira e nos colocava na cama ao entardecer e só podia sair no outro dia de manhã. Era tiro certeiro.

Mesmo com toda atenção e carinho da minha saudosa mãe, a dor passava naquele instante, mas depois continuava doendo. Foi então que meu primo Ézio disse que o tio Ivo tinha um remédio especial e curava a dor com cachaça. Isso, sem falar do primo Nem, que aconselhou a pôr uma fração de carboreto dentro do dente careado. A dor às vezes nos faz perder o sentido das coisas quando temos clareza, imagina quando não temos. E assim fui perdendo o dente e a dor continuou até o dentista do sindicato poder me atender. Foram semanas de sofrimento e rosto inchado.

A segunda dor que está em minha memória foi quando tive uma hérnia de disco. Essa era uma dor diferente da de dente, mais localizada, porém, ainda mais intensa. Mas nem por isso menos dor. Dor é sempre dor. Foi quando me apresentaram o tal de Diprospan, remédio a base de cortisona. Eu precisava viajar e a solução foi tomar injeção de cortisona para acompanhar o grupo na viagem. Uma, duas, três, quatro, cinco doses e fiquei todo inchado de tanta cortisona. Não teve jeito, tive que partir para outro procedimento para resolver.

Outra dor diferente, e essa sim pode ser considera a dor do inferno, aquela que a bíblia fala “onde haverá choro e ranger dos dentes”, provavelmente seja a tal de “nevralgia do trigêmeo”. Ela chegou a mim quando fiz uma cirurgia de garganta e, acidentalmente, meus nervos ficaram expostos a ponto de causar tamanha dor. Fiquei internado durante uma semana, onde começaram com analgésicos fortíssimos, depois aplicaram diprospan e a dor não tomou conhecimento. Até dolantina. Foi quando saí do inferno e fui ao céu em cinco minutos.

Foi a sensação mais gostosa que senti, uma sensação de não ter dor. O mais legal é que, como me deixaram com uma bombinha na mão, a cada vez que o inferno se apresentava, eu bombava para o céu. Depois daquela dor parei de reclamar de outras dores, deixei de ser dodói. Dizem que a dor do cálculo renal é tão ou mais intensa que outras dores, não quero passar por isso. É assunto para outro artigo.

O que me conforma é que o anestesista Alex disse-me que nesses tempos de medicina forte temos recursos para enfrentar qualquer dor. E que não nascemos para sentir dor. Será? E onde fica o dito popular com estes avanços, que “a dor ensina a gemer”?

É assim como o mundo me parece hoje. E você já teve dor?

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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 06/08/2012 e no Jornal A Tribuna no dia 07/08/2012.

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4 Comentários para "Dodói"

  • Adauton luiz Deolindo - 07/08/2012

    Ola Beto. Muito bem acredito que todos nós passamos por estas dores e fomos tratados de igual forma por nossas adoradas Mamães, mas felizmente sei que a dor não tem memória ou seja você não sente a dor pensando nela, ainda bem.

  • Ildo Meyer - 06/08/2012

    Caro amigo Beto,
    acredito que a expressão popular "a dor ensina a gemer" refere-se a uma situação onde não exista o recurso analgésico apropriado e o dito sofredor precisa aprender a gemer, pois não há outra alternativa. Filosóficamente, dores emocionais também ensinam a gemer, mas nestes casos, existe uma gama de opções para aliviar o sofrimento. Desculpe, mas preciso fazer algumas correções para seu texto ficar impecável: 1) medicamento buscopan não contém cortisona. Você deve ter ingerido outra medicação associada 2) o nome correto é nevralgia do trigêmeo, um nervo que se localiza ao redor da mandibula.
    Espero que sua cota de fortes dores fisicas e emocionais tenha se esgotado e que daqui para a frente possamos aprender a lidar com as dores que vierem a nos surpreender. Grande abraço

  • Daniel Tomazi - 06/08/2012

    Bastante "divertido" esse artigo! claro que é porque não fui eu a passar por todas essas dores! Tenho lutado contra cálculos renais desde meus 13 anos, já se tornou procedimento de rotina. Procuro tomar bastante água e quando começa o processo de êxodo das tais pedras, começo a me preparar com o tal Buscopan. Claro que ninguém gosta de sentir dor, mas para mim, vejo um lado positivo nela. Ela me mostra o quanto sou vulnerável e frágil e assim sou convocado a humildade e reconhecimento de minha origem, pó!

  • Derci Wotmeyer - 06/08/2012

    "....cada vez que o inferno se apresentava, eu bombava para o céu."

    Muito bom....

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