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Beto Colombo

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Enxoval de Batizado

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Enxoval de Batizado

Querido leitor, paz! O convite hoje é refletirmos sobre os trabalhos manuais e seus benefícios. 

Recentemente fui acompanhar minha esposa Albany comprar presentes numa loja de roupa infantil, especializada em enxoval para batizado. Encantei-me. Curti as roupas brancas delicadas e fiquei imaginando uma criancinha dentro delas. Não teve como não perceber os detalhes como o macacão, a manta, a toca e o sapatinho, tudo em lã. 

Observando aquela loja, não tive como não fazer um deslocamento longo e lembrar da vida vivida na encosta do morro do Caravaggio, Rio Maina, onde a nossa mãe costurava para os 13 filhos, para o pai e para ela, é claro. Muitas vezes, ainda tirava um tempo para costurar para fora, para vizinhos, amigos e até parentes. Era uma forma de aumentar a renda da família. 

Lembro-me ainda da nossa mãe, mesmo com todos os seus compromissos, de manter em dia a casa numerosa, ainda arrumava tempo para costurar. Ainda está aqui dentro de mim as três ocasiões onde corríamos o risco de ganhar roupas novas. Sim, correr o risco porque em uma família como a nossa, sempre o irmão mais velho passava roupas e calçados para o irmão mais novo. Por isso, aguardávamos o Natal, a festa do Caravaggio e o início das aulas com muita expectativa, pois com sorte, iríamos trocar de roupa, quando nos era repassada a dos irmãos mais velhos, ou ganhávamos uma muda nova. 

Depois de adulto e já casado, falei com minha mãe sobre aqueles tempos e ela me disse algo que naquela época não fez muito sentido, mas hoje, com o suporte da Filosofia Clínica, faz muito sentido. Disse-me ela: “Filho, quando eu estava muito encasquetada com algo, ou eu ia costurar ou ia trabalhar na horta”. Encasquetar, no dizer da minha mãe, era ficar fixa num pensamento, numa questão a resolver, enfim, numa ideia fixa. 

Bebendo na fonte da Filosofia Clínica, explico que sabiamente nossa mãe e tantas outras mulheres daquele tempo saíam das abstrações, do mundo das ideias, das questões problemáticas que encasquetavam e faziam um deslocamento curto. Deixavam a questão no mundo das ideias e, ao fazerem tricô, crochê, ao trabalharem na horta ou até mesmo costurando para fora, deixavam a mente trabalhar por elas. Ou seja: colocavam a questão a ser resolvida em alguma parte da mente e iam fazer outra coisa, enquanto a mente ficava trabalhando para arrumar uma solução. Assim, quando menos esperavam, vinha um insight e elas resolviam saudavelmente as questões. 

Para as pessoas que se fixam em alguns pensamentos, esse submodo do deslocamento curto tem se mostrado muito eficaz. Para essas pessoas, questões como insônia, enxaquecas, mau humor, algumas vezes são resolvidos com grande eficácia. Mas, vale a pena repetir, isso é assim para algumas pessoas. Para ter mais chance de acerto é importante que o filósofo clínico conheça a estrutura de pensamento do partilhante, saber como ele pensa, como ele age, como ele funciona. 

O fato é que nos dias de hoje, onde existem empresas especializadas em fabricar enxovais para todo o tipo, gosto e necessidade, está cada vez mais difícil encontrar pessoas que fazem, de próprio punho, as roupas de casa, as vestimentas da família. Até mesmo ter o seu quintal de salsinha e cebolinha em casa. Compra-se tudo fora. Inclusive o remédio tarja preta que poderia, em alguns casos, ser previamente trocado pelas tarefas manuais. 

É assim como o mundo me parece hoje. E você, faz alguma tarefa manual que a traga para o momento presente? 
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 16/11/2012 e no Jornal A Tribuna no dia 17/11/2012. Artigos inéditos serão publicados a partir de março de 2013.

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9 Comentários para "Enxoval de Batizado"

  • tiago duminelli - 16/11/2012

    Um otimo texto.

    Sou totalmente contra este tipo de remédio ou melhor dizer droga e forte por sinal, onde vejo pessoas viciadas em tal, que talvez nao necessitem disso para viver, apenas precisam encontrar dentro de si a felicidade.
    O que temos de natural no mundo(coisas simples), é simplesmente uma terapia maravilhosa, aprenda a usa-la.

  • Ivanete de March - 16/11/2012

    Que belas mamães e vovós deixam esses exemplos...quão gratificantes!! Lembrei-me do filósofo paranaense Mário Sérgio Cortella, dia desses em um programa de televisão, onde o mesmo enfatizou a frase do pensador e humorista Pierri Darc, que diz: "O futuro é o passado em preparação" Se retrocedemos ao passado(de nossas infâncias), isso não será regressão, e sim preparação para a progressão.....de uma qualidade de vida...
    Como é importantre avaliarmos! Temos que voltar atrás, lembrarmos de como as coisas eram mais resolvíveis, de maneiras mais simples e principalmente com mais tempo...vale não somente relembrar...
    Ótimo artigo!
    Iva

  • Jô Lopes - 08/06/2012

    Bom dia querido Beto!

    É Beto, também fazendo um Deslocamento Longo de uma Circunstância em que, saí do Senrorial para o Abstrato."Por volta de 1993, fiquei no carro aguardando meu marido que ia a uma loja.Enquanto aguardava fiquei olhando as pessoas passarem na rua e tentado imaginar a historia de cada uma, de onde possivelmente vinham para onde iam, como viviam...assim fiquei por alguns minutos, tão ligada neste pensamento que até me assustei, quando meu marido me perguntou o que você está fazendo?Hoje é perigoso fazer isto,mas sempre encontro um meio para lidar com alguma questão difícil, movida pelos conhecimentos de FC e pelas minhas intuições.

  • Célia Costa Ferreira - 04/06/2012

    Ah! Se as pessoas que usam medicamentos “tarja preta” soubessem que eles podem por ser substituídos por tarefas manuais ao seu alcance e outras, adequadas a cada individualidade muito do que hoje se rotula como depressão seria substituído pela tristeza, passageira e normal, quando a pessoa passa por uma experiência de perda. Foi tirado da pessoa o direito de entristecer-se. Tudo é depressão, da mais leve diminuição do nível do humor até a real condição depressiva, decorrente de inúmeras causas, defendidas por teorias diversas. Ah! Se os profissionais que ministram tais medicamentos conhecessem a Filosofia Clínica e seus recursos terapêuticos, quiçá devolvessem aos clientes as habilidades refugadas e o direito de partilhar seus problemas existenciais, escapando das contenções químicas e dependência emocional a eles.

  • Andrea Pedrosa - 04/06/2012

    Olá Beto,,quando estou tensa e ansiosa,amo cuidar do meu jardim e depois me sinto bem melhor

  • jorge - 04/06/2012

    Com o planejamento familiar,muitas pessoas morando em apartamentos,ou o casal que trabalhando fora e deixando seus filhos nas creches,fazendo tudo com horario programado pra chegar em casa,deixar tudo pronto pro dia seguinte ....silencio hora da novela....e depois esperar o final de semana pra dormir até mais tarde ....realmente que saudade de 1970...

  • zelia Cavalcante de Oliveira - 04/06/2012

    Beto,que linda explanação e excelente avaliação sobre o "olhar subjetivo" de cada pessoa, identificando a sua própria "visão de mundo". Amei tudo o que voce escreveu dentro de uma lógica, capaz de fazer o leitor comprenender muito bem o sentido e o significado de um texto bem escrito! Zelia Cavalcante/ Manaus

  • ulcinei - 04/06/2012

    Sou um apixonado pela terra, e nos tempos que tiro para mexer no quintal, cortar a grama, trabalhar no jardim é que consigo relaxar, desligar a mente,descarregar as ernegias acumuladas da semana e assim renovar as forças para uma nova semana.Sair da rotina, mudar os afazeres é uma ótima terapia.

  • iara pimentel - 04/06/2012

    Embora eu seja uma mulher moderna, ainda uso essa tecnica para relaxar.
    É muito bom, funciona bem e ainda tenho o prazer de ver algo lindo que foi produzido por minhas mão.

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