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Beto Colombo

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Kahlil Gibran pondera sabiamente que nossos filhos não são nossos filhos, são os filhos e as filhas dos desejos que a vida tem de si mesma. Talvez uma das chaves desta relação que causa muito trauma esteja aqui, no pronome possessivo, no “nossos”. Dizer que os filhos são nossos é o mesmo que o mar afirmar que o rio é de sua propriedade. 

Talvez ninguém seja de ninguém como posse, como dono pois, como canta o grupo musical Mahtma, da Bahia: “De mágoa se pode prender, em afeto prende quem liberta, quanto mais a porta aberta, menos se quer sair”. Datada do século XVII, a Carta do Chefe Seatle também corrobora com esta ideia quando estampa que “a terra não pertence ao homem, o homem é que pertence a terra”.

Em relação aos filhos, é provável que nosso papel como pais é que sejamos pontes. Eles vêm a este plano por nosso intermédio, saem do plano sutil e vêm para o denso. E, pelo que me consta, não encontrei pontes requisitando a paternidade dos que sobre elas passam. Pontiféx, ligação, união entre pólos e margens.

Talvez como pais, devamos falar e mostrar os perigos que nossos filhos podem enfrentar, das fortes corredeiras, de possíveis quedas de água. Mas não há outro jeito deles serem eles se não se jogando na água. “Deixem-nos livres”, sugeriu Gibran, livres para serem eles mesmos.

Todo rio deságua no mar e só adoecemos quando represamos. Nossos filhos vieram para ser eles mesmos, com suas escolhas ainda na tenra idade e a cada ano vão construindo a si, marcando seu espaço nas suas jornadas, fazendo história. 

Alguns pais protegem tanto seus filhos, criam “represas” que tiram a oportunidade de serem eles. Muitas vezes até transferem seus sonhos, vontades e desejos. Eles acabam vivendo um script que na verdade é dos pais.

Amor talvez não seja apego. Este, o apego, geralmente segura, prende, paralisa, fecha. Já aquele, o amor, faz movimentar, abre, solta... 

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre filhos?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 06/07/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 07/07/2011
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2 Comentários para "Filhos"

  • Albertina Manenti Silvesrini - 08/07/2011

    Querido Beto, falar de filhos para mim é sempre maravilhoso, Deus me presenciou com uma pedra preciosa e lapidada. Quando se pensa em te-los, o primeiro qrande passo é estar preparado, ou melhor aprender a conhecer o mundo das emoções, caso contrário podemos navegar sem leme. Com nossos filhos fizemos ao longo de nossas vidas uma viagem interessante, que certamente mudará para sempre nossa maneira de ve-la e reagir aos obstáculos que nela surgem. Com os filhos nós encontramos o caminho da felicidade, as veredas da tranquilidade, o prazer do diálogo, saber gerenciar a coragem e a lucidez para saber que eles tambem terão suas vidas próprias, suas famílias. É assim que eu penso.

    Albertina

  • Camila Porto - 07/07/2011

    Caro Beto Colombo, seus pensamentos transmitidos pelas palavras, soam como música, as quais queremos ouvi-las! Meus parabéns pelo espaço "Como o mundo me parece", especialmente por este texto que descreve a minha vivencia, no personagem de filha. Fazes refletir com clareza este conflito de pais e filhos, és objetivo e na minha opinião, sensato! Obrigada por seus artigos excelentes, que nos fazem reorganizar a consciência, e percebermos que estes momentos são páginas não escritos por nós, entretanto não são nada mais que, partes da nossa história escrita como pessoas e aprendizados para todos os personagens da surpreendente vida!

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