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Beto Colombo

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Filhos

Querido leitor, Khalil Gibran pondera sabiamente que nossos filhos não são nossos filhos, são os filhos e as filhas dos desejos que a vida tem de si mesma. Talvez uma das chaves desta relação que causa muito trauma esteja aqui, no pronome possessivo, nos “nossos”. Dizer que os filhos são nossos é o mesmo que o mar afirmar que o rio é de sua propriedade.

Talvez ninguém seja de ninguém como posse, como dono, pois como canta o grupo musical Mahatma, da Bahia: “De mágoa se pode prender, em afeto prende quem liberta, quanto mais a porta aberta, menos se quer sair”. Datada do século XVII, a Carta do Chefe Seattle também corrobora com esta ideia quando estampa que “a terra não pertence ao homem, o homem é que pertence a terra”.

Em relação aos filhos, é provável que nosso papel como pais é que sejamos pontes. Eles vêm a este plano por nosso intermédio, saem do plano sutil e vêm para o denso. E, pelo que me consta, não encontrei pontes requisitando a paternidade dos que sobre elas passam. Pontiféx, ligação, união entre polos e margens.

Talvez, como pais, devamos falar e mostrar os perigos que nossos filhos podem enfrentar, das fortes corredeiras, de possíveis quedas de água. Mas não há outro jeito deles serem eles mesmos se não se jogando na água. “Deixem-nos livres”, sugeriu Gibran, livres para serem eles mesmos.

Todo rio deságua no mar, para mim só adoecemos quando represamos. Nossos filhos vieram para ser eles mesmos, com suas escolhas ainda na tenra idade e a cada ano vão construindo a si, marcando seu espaço nas suas jornadas, fazendo história. Alguns pais protegem tanto seus filhos, criam “represas” que tiram a oportunidade de serem eles. Muitas vezes até transferem seus sonhos, vontades e desejos. Eles acabam vivendo um script que na verdade é dos pais.

Amor talvez não seja apego. Este, o apego, geralmente segura, prende, paralisa, fecha. Já aquele, o amor, faz movimentar, abre, solta...

Isso é assim para mim hoje.


Beto Colombo

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2 Comentários para "Filhos"

  • Jô Lopes - 21/07/2013

    Boa tarde, Beto querido...!
    "Nossos filhos vieram para ser eles mesmos".Suas histórias são editadas por eles mesmos e as vezes por outras pessoas.Isto é se eles permitirem.Mas, quando nos percebemos como filhos,refletimos sobre os nossos momentos de limitações e dependências até o dia da nossa liberdade para a auto-construção, que passou por um processo de evolução e nos trouxe até aqui.

  • Giovani - 19/07/2013

    OLá Beto:
    Lindo o texto e linda também a foto. Parabéns. Abraço.

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