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Beto Colombo

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Filosofia e Vinho

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Filosofia e Vinho

Pasteur disse que  “há mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros”. Possivelmente isso era assim para ele pelo seu acervo no intelecto. Mas como uma pessoa mecânica, prática, sem um bom acervo no intelecto  poderia filosofar depois depois de ingerir uma certa quantidade de álcool ? Será que realmente dá para filosofar depois de ingerir substâncias alucinógenas como álcool contido no vinho? 

Ao longo de toda a história registrada, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos. No Brasil, por exemplo, temos a ayahuasca utilizada pelos adeptos do Santo Daime e União do Vegetal, religiões nascidas com o povo da floresta amazônica.

Na Bíblia, Mateus, no livro de mesmo nome, faz um relato do nascimento de Jesus descrevendo que os reis magos levaram ao Messias três presentes especiais: ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo.

O incenso, utilizado inicialmente no antigo Egito e extraído do tronco de árvores aromáticas, é uma substância que reduz a ansiedade e o apetite. A mirra, originária da África tropical, é uma resina obtida dos arbustos do gênero Commiphora. Seus efeitos analgésicos se comparam aos da morfina. No Evangelho de Marcos aparece mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem. Ele rejeitou a bebida, lembram?

No Livro “Bebo, Logo Existo”, do inglês Roger Scruton, o autor faz uma descrição detalhada de como os antigos encontraram uma solução para o problema do álcool. Com sabedoria e técnicas eles envolveram a bebida em rituais religiosos. O que eles fizeram foi tratá-la como a encarnação de um deus e marginalizar o comportamento destrutivo como obra do Deus, e não do adorador e assim foram resolvendo o uso do álcool para as pessoas comuns. Uma boa artimanha, pois é bem mais fácil reformar um deus do que um ser humano.

Hoje as substâncias químicas obtidas de plantas superaram o âmbito religioso e terapêutico e se tornaram iscas à dependência química com suas nefastas consequências. Um exemplo catastrófico é o da coca, cuja folha é mascada pelos indígenas andinos para facilitar a respiração em regiões de ar rarefeito.

Além da religião, outras soluções foram encontradas para não excluir os alucinógenos do uso entre os povos. Os gregos, por exemplo, fizeram do vinho um elemento reunidor daquela sociedade. Nos banquetes, eles descobriram que uma reunião regada a bebida alcoólica fazia aquele povo sorrir para o mundo e também o mundo sorrir para eles.

A bebida sagrada pelos Cristãos, muitos séculos mais tarde, também era usada pelos franceses após cada batalha vencida ou perdida, quando celebravam a vitória ou a vida, regada com seus bons vinhos.  Quem não se lembra da célebre frase sobre o vinho dita por Napoleão Bonaparte em um desses encontros se referindo ao vinho? “Na vitória merecido, na derrota necessário”.

É sabido que se consumido de forma adequada, o vinho melhora o convívio humano e tem o poder de colocar o amor e o desejo a uma distância que os torna possíveis de serem discutidos.

A sagrada escritura nos recomenda a bebida quando diz que “o bom vinho alegra o coração dos homens”. E nesses tempos da busca desenfreada pela felicidade, Benjamin Franklin nos alerta que “o vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja nossa felicidade”.

Em geral para os filósofos, o vinho, quando consumido socialmente durante ou depois de uma refeição, deve ser acompanhado de um bom tema de conversa, tema que se espera, perdure juntamente com a bebida. Se for bebido na ocasião, no lugar, com as companhias e com tema adequado, o vinho é o caminho para a boa meditação e o arauto da paz. Branco, tinto, rosé, se bebido no estado de espírito certo, é definitivamente bom para a alma. E não há melhor acompanhamento para o vinho do que a filosofia. Ao pensar com o vinho, aprendemos a beber em pensamentos e a pensar em goles, disse o filósofo Roger Scruton.

Há um provérbio francês que diz que na água refletimos nossa face, no vinho visualizamos a alma do outrem. E, se Cícero, filósofo romano, estiver certo, é com o vinho e com o tempo que conheceremos os seres humanos, já que, para ele, “os vinhos são como os homens. Com o tempo os maus azedam e os bons apuram”.

Sem mais delongas e com um bom tinto já decantado eu fico com Epicuro, o filósofo do prazer sábio. Ele nos alerta que “nenhum prazer é em si um mal, porém, certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres”.  Por isso, Epicuro recomenda o prazer sábio, isto é: saber até que ponto o vinho ainda é prazer, é ser tão educado em nossas sensações ao ponto de chupar uma jabuticaba e saber parar antes do amarguinho. Assim também deve ser com o vinho.

Onde há vinho, há conversa, há amizade, há vida. Saúde! Tim tim!

Beto Colombo

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