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Beto Colombo

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Historicidade I

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Um dos passos mais importantes na filosofia clínica é a história de vida da pessoa ou, como tratamos, a historicidade. Há pessoas que contam sua história por ordem cronológica e progressiva, sem saltos. Outras contam por eventos, por exemplo, quando entrei na escola, quando repeti de ano, quando dei meu primeiro beijo, passei no vestibular, quando me formei, me casei, meu primeiro filho e assim por diante. Já outros contam suas histórias por capítulos e eles pontuam isso no seu discurso. Por exemplo: “Doutor, vou contar a minha história. Na minha infância eu fazia assim, depois na minha adolescência, juventude, agora na minha idade adulta”. Nesses relatos, há de tudo e não existe certo ou errado e não conheço nenhuma história sequer parecida. 

Há pessoas que fotografam uma pessoa num certo momento e não atualizam mais, como aquele pai que fotografou a filha com 8 anos e a filha já tem 50 anos. Ela já se separou duas vezes, usou e usa drogas e o pai a trata como “minha princesinha”, ou seja, ele tirou uma fotografia existencial da filha aos 8 anos e não atualizou mais. Esse pai não viu coisas que se passaram na vida da filha, ele nem a vê, ele fez uma foto existencial. Outros fazem fotos existenciais de uma situação, de um contexto, de pessoas, de coisas, de si mesmo, depende. Isso não é uma sentença, é apenas uma caracterização, as coisas podem mudar sozinhas, outras precisam de ajuda se desejarem a mudança.

Há pessoas que vivem suas vidas lá no passado, estacionaram nos anos 80. Não gostam de computador, preferem as músicas, filmes e os produtos daquela época. Outras vivem apenas o presente, não olham para frente nem para trás e há aquelas que apenas o corpo se faz presente, elas estão lá no futuro. Em consultório se vê de tudo.

Algumas pessoas vivem o script escrito por outro, alguém escreveu, ele é apenas o personagem. Tanto o roteiro como a história foi escrita por outro, e gostam de viver assim e não está certo ou errado viver assim.

A historicidade é como um mapa que mostra nossas pegadas por onde estivemos, onde passamos, é um rico testemunho, não é propriamente o que somos, mas onde estivemos. Há pessoas que passam por um problema e espairam esse problema por toda a sua história. Na verdade, esse problema é apenas um ponto da história, não é a história, não é a pessoa, é apenas um ponto de sua história.

Esse tema é muito rico e amanhã volto com a segunda parte.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre historicidade?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 24/08/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 25/08/2011
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1 Comentários para "Historicidade I"

  • Djone Carradore - 24/08/2011

    Acredito que somos responsáveis pelas rédeas de nossas vidas, onde necessariamente passaremos por momentos bons e ruins que formarão nossas histórias de vida!!
    como dizia a musica de Almir Sater..."Cada um de nós compõe a sua história
    Cada ser em si Carrega o dom de ser capaz
    E ser feliz"

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