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Beto Colombo

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Historicidade II

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No artigo de ontem fiz menção a uma parte básica e fundamental da Filosofia Clínica, que é a historicidade das pessoas. Dizia que cada um tem um jeito, uma forma que é única e que isso é fruto de todas as suas incursões na vida. Dizia, enfim, que a historicidade é como um mapa que mostra nossas pegadas por onde estivemos, onde passamos, é um rico testemunho, não é propriamente o que somos, mas onde estivemos.

Ontem também expus várias formas das pessoas serem nesta existência, como aqueles que fazem foto existencial, as que paralisam no passado, as que aceitam viver scripts agendados por outros. Mas não há só esses, há muito mais.

Há pessoas que vivem suas vidas na vida dos outros, como aquele pai que fica feliz porque o filho se tornou um cantor famoso e seu discurso passa a ser “eu não sou ninguém, trabalhei a minha vida inteira, mas olha aqui meu filho, ele é famoso”. E passa a viver a vida do filho como se fosse a vida dele e, de fato, pode sim ser a vida dele.

Algumas pessoas, na sua história, são personagens secundárias, elas vêm depois de todos os outros, nem coadjuvantes são, e isso não é certo ou errado, apenas é. Agora, na medida em que essas pessoas tomam ciência desses fatores, pelo menos elas têm um campo mais amplo. Algumas começaram a se dar conta. Há pessoas que sua história de vida são a história de um carona, elas apenas acompanham o outro, o marido, o pai... Elas não se importam, elas apenas querem estar junto com a gente. Se eu estiver com você, não importa para onde a gente vai, elas não dão ênfase a trajetória e sim com quem estão.

Às vezes esses caronas se tornam muito exigentes, mas às vezes também achamos que vamos ter uma vida cômoda por ter dado carona, como se a pessoa fosse uma mala e malas não falam. Há malas que falam, exigem, incomodam, começam a reclamar da estrada, “não acontece nada nesse trajeto, está quente, agora está muito frio, a música não é boa, pare que eu quero descer”; e olha que foi ela quem pediu carona.

Você está contente com a sua história de vida? Você é de fato o que você queria ser? E se você descobrir que a vida que você leva não tem nada a ver com você? Ficaria decepcionado? A boa notícia é que você não precisa ficar pregado na cruz, isso tem saída. Uma delas é por intermédio da filosofia clínica. Pense comigo. Se depois de ouvir esse artigo você resolva tirar a máscara social, você resolva ser você mesmo, de repente torna-se agressivo ou mulherengo, entre tantas outra, será que a pessoa que vive com você aceitaria tais mudanças?

Há pessoas que estão perdidas e o papel da filosofia clínica é encontrar na sua historicidade, aqueles pontos que fazem sentido com a sua história, talvez ali esteja a saída. Por exemplo: a pessoa diz no consultório que tem saudades das conversas com amigos da faculdade, lá do passado, onde eles bebiam uma cerveja gelada, etc. Um dos caminhos é pegar essas referências que estão lá e atualizar. Por exemplo, você diz: lembra de quando você bebia cerveja com o João no bar do Rubens? Que tal você ligar para ele e vocês irem até lá degustar um bom vinho, afinal os gostos mudam, e assim começa um novo momento em sua história. Lembrou de algo assim? Que tal um passito más?

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre historicidade?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 25/08/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 26/08/2011
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2 Comentários para "Historicidade II"

  • Albertina Manenti Silvestrini - 28/08/2011

    Olá Beto, as reflexões à cerca dos textos historicidade I e II, contemplam um campo muito rico. Penso que tais situações estão incutidas nas pessoas por encontrar nelas momentos vividos e já encerrados, questões que sem dúvida foram fundamentais para as pessoas, Podemos levar esta reflexão no campo da intemporalidade, a questão da idealização, ,onde tal comportamento deixam as pessoas até cegas a um rico patrimonio de conhecimento. porem, as coisas que tocaram em alguma epoca, é o elo para lembrar coisas antigas e tornar atuais. Como coloca Peter O ´Connor Tudo o que provem dos humanos é histórico.

    Estamos Juntos,
    Albertina

  • Rene Burn - 25/08/2011

    Falando no Bar do Rubens, lembrei do Murinho do Santo. Acho que temos que levantar outro... em algum lugar do presente...

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