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Beto Colombo

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Mera Coincidência

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Aldous Huxley, em sua obra O Admirável Mundo Novo, livro da década de 30, narra um futuro no qual a sociedade é regida por castas e os males, os problemas, dúvidas, inseguranças, quem sabe depressão, stress, tristeza, euforia, hiperativismo seria controlado pelo consumo de uma droga sem efeitos colaterais aparentes, chamada de “soma”. Qualquer semelhança é mera coincidência. Profetizando os nossos tempos?

Em meu artigo de hoje, desejo me ater somente numa parte do livro. Refiro-me a parte onde as crianças eram ensinadas a odiar as belezas da natureza porque as árvores, flores e paisagens nos dão prazer gratuito, e isso, o prazer gratuito, é muito ruim para a economia. Em contrapartida a isso, elas eram ensinadas a amar as coisas artificiais. Um exemplo? Vamos a ele: “É economicamente prejudicial ter prazer em remar num lago tranquilo”, argumentavam os defensores deste novo sistema. “Precisamos amar os parques aquáticos, aqueles no qual pagamos para nos divertir”, acreditavam eles.

No Admirável Mundo Novo de Huxley não há espaço para admirar cavalos pastando, o economicamente correto é amar as motocicletas, o automóvel, o avião. Deleitar-se com o nascer ou o pôr do sol, o desabrochar da borboleta, o som do bambu crescendo, o cheiro adocicado das flores e a maresia que vem do mar, então, nem pensar. Qualquer semelhança é mera coincidência. 

No Admirável Mundo Novo de Huxley não é economicamente correto ter um espaço central na cidade com casas inseridas entre as árvores. Era preciso serem destruídas e construídas altas torres, os rios precisavam ser canalizados para dar espaço a construções, ao comércio. A grama é substituída por lajotas, a vegetação por asfalto. 

No Admirável Mundo Novo não há tristeza e, se houver, a droga “soma”, sem efeito colateral aparente, resolve. Afinal não é economicamente correto para a indústria produtora da droga que haja outro tipo de cura se não pelas drogas. Qualquer semelhança é mera coincidência. “E vida de gado, povo marcado, povo feliz”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o admirável mundo novo?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 12/07/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 13/07/2011
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4 Comentários para "Mera Coincidência"

  • Rosinei da Silveira - 13/07/2011

    Gostei muito da reflexão. sou professor em segurança pública e este texto diz tudo sobre nossa atual situação. Parabéns pela reflexão!

  • cinthia - 12/07/2011

    tenho um pouco de receio desse admirável mundo novo. parece nos que nos forçam a deixar esses momentos (admirar as arvores o mar entre outras) escapar pelas mãos. parece um labirinto sem saida (parece). abraços e obrigada.

  • Silvia Regina Francio - 12/07/2011

    Lí este livro faz mais de 20 anos. Lembro, no entanto, que Husley tambem falou que, não muto distante, o ser humano seria identificado com um código, um número. (Celulares de hoje). Outro aspecto que lembro, diz respeito a morte. Dizia, Huxley, que deveríamos ensinar as crianças a encarar a morte de forma semelhante ao nascimento, com a leveza e alegria do nascimento, porque ambos são momentos inexoráveis aos seres vivos. Gostei muito deste livro, ótima escolha

  • Wagner G. Cardoso - 12/07/2011

    Será que tudo não passa de uma questão de interesse para benfeitoria própria, do dito "economicamente corrreto", as mentes mais fracas vão sendo manipuladas de tal maneira a fazer algo que é melhor para o "economicamente corrreto" e não para nós mesmos, inversão de valores? nos deixamos ser manipulados? o que é certo e o que é errado? será que o certo é certo e o errado passou a ser o certo?

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