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Beto Colombo

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Meu Avô Tinha Razão

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Querido leitor, hoje vou comentar sobre enchentes. Será que meu avô tinha razão?

Cresci morando com meus 12 irmãos, próximo ao morro do Caravaggio. Era uma vida simples e cheia de aventuras.  Daquele tempo, tenho muitas lembranças boas que ainda vivem dentro de mim e uma delas quero compartilhar com você.

Lembro dos domingos que ia à casa dos meus avós paternos e adorava passar o dia na casa deles. Jamais esqueci que em um dia de chuva ao redor do fogão a lenha falávamos sobre enchentes onde meu avô profetizou: “Um dia o mar vai vir retomar tudo o que é seu”. Na cabeça de criança, aquilo me entrou como uma flecha, até pela novidade, mas depois soube que não era uma frase autêntica do meu avô, pois a ouvi em outros lugares.

Pequeno, não entendi o que meu avô queria dizer com “um dia o mar vai vir retomar tudo o que é seu”, mas hoje, provavelmente eu tenha descoberto a essência daquelas palavras, até porque vivi um exemplo interessante, exemplo este que compartilho agora com você. 

Nas minhas caminhadas, sempre curti um local com árvores nativas que me emprestavam suas sombras para o merecido descanso e recolhiam a água de excesso da chuva formando um laguinho aconchegante. Sempre procurava parar ali, organizando a caminhada para uma paradaestratégica.

Várias vezes cheirei a água transparente e até me atrevia beber. Havia vida naquele laguinho, como girinos e até peixes menores. Enfim, era um lugar sagrado e de poder para mim, eu me deslocava até minha infância. Como era bom parar ali e descansar. Mas qual não foi minha surpresa quando um dia desses resolvi ir até lá e deparei-me com o laguinho e aquela pequena correnteza terraplanados e o buraco, onde a água descansava, totalmente preenchido por terra. Sem me tocar direito, mas no íntimo tinha uma desconfiança, segui minha caminhada. Segui com um sentimento de pena do laguinho, mas não imaginava a seriedade do ocorrido.

Tempos depois, passando no local, vi que a água procurava seu descanso, mas como o buraco havia sido aterrado, ela começou a tomar conta do asfalto, enchendo a pista e atrapalhando o trânsito, por várias vezes quase provocando acidentes. Foi quando fiz a ligação com aquela fala de meu avô lá nos idos de 1970. Talvez seja isso que ele quis dizer, liguei a sua fala com o que está ocorrendo comigo nesse momento. 

Logo comecei a fazer ligações com todas aquelas informações e ter algumas conclusões e levar para escalas maiores de nossa sociedade. Percebi que em muitas partes da nossa cidade, da nossa região, e até do país, até há poucos anos, eram açudes, área de depósito de água, locais onde foram edificados bairros, praças, shoppings, vias asfálticas, prédios.

É também por isso que a cada verão conhecemos tragédias que poderiam ser evitadas, vidas dizimadas, famílias tolhidas, esperanças sufocadas. Tudo baseado num paradigma desconectado com o todo, afinal de contas, muitos de nós deixamos de pensar globalmente e agir localmente, e também agir globalmente e pensar localmente. Enfim, estamos todos ligados: que tapar um local que serve de bacia  para receber a água da chuva pode provocar uma enchente na cidade.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre as enchentes?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 05/10/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 06/10/2011.
Leia artigos inéditos nesse espaço a partir do dia 20 de março.
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2 Comentários para "Meu Avô Tinha Razão"

  • vania burigo - 16/03/2012

    Muito bom, Beto!
    Assim como procuras os locais de descanso das águas, ando pela cidade de Cricúma e procuro os pavimentos permeáveis das ruas ( lajotas ou pedras) que conduziam as águas da chuva para o subsolo.
    Agora com asfalto em muitas ruas, as águas correm com muito mais volume e velocidade em direção ao centro provocando cada vez mais enchentes.
    O asfalto é bom, mas já existem alternativas ecológicas e não podemos continuar investindo em problemas.
    Gaste-se até mais, no piso certo!

  • Jairo Schwamberger - 08/10/2011

    Olá Beto
    Eu que o diga sobre as enchentes. Aqui em Brusque,há 30 dias víamos a fúria das águas, que ciclicamente mostra sua força. Meu pai também tem de meu avô as mesmas histórias, que vem sempre nos avisando sobre as águas. Como sempre tivemos propriedades a beira rio e tradicionalmente vivemos a expectativa das cheias, nunca tivemos grandes perdas, porque aprendemos a conviver com esses momentos.
    Grande abraço
    Jairo S.
    .....lá do curso da Unisul!!!

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