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Beto Colombo

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Queridos leitores. Dias atrás  fui a um  show e encontrei um velho amigo que há muito tempo não  via.  Ele me perguntou  rispidamente porque eu havia me afastado tanto dele. Disse-me que aquela “minha decisão” nos separou a ponto dele não conseguir falar comigo por 10 longos anos.

Contente com o encontro, mas meio constrangido pela pressão, respondi que, naquele momento, minha atitude parecia lógica. Contudo,  horas mais tarde, eu percebi que minha decisão contemplava apenas a razão, a minha razão.  Hoje compreendo que  aquele meu amigo funciona diferente de mim e ele esperava que eu o compreendesse.

Na época, depois do acontecido, eu apenas deixei o rio fluir, a vida continuar. Não havia mais nada a fazer, afinal de contas, a vida não é como eu desejo, a vida é como ela é.

Confesso que se eu tivesse o conhecimento e a maturidade de hoje, certamente teria feito uma recíproca de inversão. Teria, pelo menos, tentado ir ao mundo dele e a decisão provavelmente teria sido diferente. Pelo menos o encaminhamento desta amizade separada seria, no mínimo, diferente.

Hoje eu me pergunto: Por que nos torturamos tanto por algo que não deu certo lá no passado? Por que julgarmos o passado com a maturidade que temos no presente? 

Na música My Way, Frank Sinatra canta: “Se eu acertei ou se eu errei, eu fiz do meu jeito”.

Com a maturidade tenho aprendido que tudo isso faz parte do caminho e que não precisamos nos torturar porque cometemos tais erros. Errar faz parte da jornada humana. Muitas vezes  só sabemos que estamos crescendo como ser humano quando cometemos erros diferentes. 

No consultório, tenho recebido pessoas despedaçadas existencialmente e se torturando por decisões feitas lá atrás. Falam da filha grávida que foi embora depois de uma briga e essa mãe, imóvel, pregou-se  na cruz durante longos anos sem tomar uma atitude. E a tortura pesava ainda mais por não ter curtido os primeiros anos da neta.

Tenho visto também pessoas culpando os outros, tenho visto corações partidos e o amor transformando-se em raiva, em ódio. Tenho visto mulheres e homens rancorosos porque o casamento acabou após 25 anos, lamentando que não deu certo. Será que duas pessoas que conviveram 25 anos, viveram bons momentos, criaram filhos juntos, podemos dizer que não deu certo?  O que é o certo?


Enquanto lamentamos e nos torturamos, deixamos de ver o colorido do mundo que se apresenta a cada manhã. Enquanto julgamos, deixamos de amar. 

Para mim, no momento, a vida é boa. Às vezes dura, é verdade, mas boa, muito boa. 

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a sua vida?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM em 30/09/2011 e publicado no Jornal A Tribuna em 01/10/2011. Artigos inéditos serão veiculados a partir de março de 2013.
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2 Comentários para "Meu Jeito"

  • Wagner G. Cardoso - 09/03/2012

    Muito bom este artigo amigo Beto, realmente nos torturamos algumas vezes por ter feito algo ou até mesmo de não ter feito, más como ficaria o aprendizado, a vida é assim, as vezes não basta uma pessoa vir e falar para nós como vai ser, pois temos que vivenciar aquilo para saber como é, o que esta feito, esta feito, o importante é saber que a atitude tomada foi ruim ou boa. Uma mensagem que escutei um certo tempo e achei interessante foi "a experiência é um carro com os farois voltados para trás" e realmente, se formos ver, erros que cometemos uma vez e aprendemos com eles, dificilmente vamos repetir, isso é a vida. Grande abraço e parabéns pelo artigo.

  • Alexandre Cabreira - 30/09/2011

    Coluna de Danuza Leão, do último domingo, na Folha: (tem a ver com o que falaste agora há pouco)

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    Perigosas tentações DANUZA LEÃO

    FOLHA DE SP - 25/09/11
    "Encontrar um antigo amor é sempre embaraçoso -e complicado. Um dos dois fez o outro sofrer, claro, por isso não dá para dizer (nem ouvir) um "oi, tudo bem?", que poderia soar como uma cruel indelicadeza.
    Em lugares com muita gente é possível disfarçar, apertando os olhos e fingindo que ficou míope, por exemplo. Pode também atender o celular (que não tocou, mas dá para fingir que ele vibrou) e cortar a possibilidade de uma conversa.
    E conversar sobre o quê? Política, o último filme? Sobre o passado? Difícil, um encontro desses, e quando essas duas pessoas tiveram um grande caso de amor há muitos e muitos anos, nunca mais se viram e o acaso fez com que eles se encontrassem, aí é muito grave.
    Primeiro é o susto, seguido de uma fração de segundo para reconhecer -quem diria?- o que foi uma grande paixão.
    Essa hesitação acontece com os dois; não que um tenha se esquecido do outro, mas tudo aconteceu há tanto tempo que, quando esse encontro acontece, a ficha leva alguns segundos para cair.
    Ele vai tentar reconhecer nela aquela mulher que tanto amou -sem conseguir. Ela vai achar que o tempo foi cruel com ele, esquecida de que o tempo passou para ela também.
    Mais do que qualquer ruga, foi a expressão do olhar que mudou. Por expressão do olhar entenda-se o brilho das ilusões dos 30 anos, das esperanças, da certeza de que o amor seria eterno.
    O tempo passa e a vida vai nos fazendo menos crédulas e mais práticas; menos românticas, sobretudo.
    Quando eles se olham, se dão conta de tudo isso e de muito mais; sabem que cada marca no rosto, cada fio de cabelo branco, é resultado de outros amores que aconteceram desde a última vez em que se viram, das experiências pelas quais passaram, um sem o outro. É a dolorosa constatação de que a vida passou. Para elas, é sempre pior, já que as mulheres costumam ser dramáticas.
    Como é possível perguntar a um ex-grande amor o que aconteceu nos anos em que não se viram, se ele sofreu quando se separaram, se esqueceu, se se apaixonou de novo?
    E não poder dizer que em todo esse tempo nunca surgiu outro homem que apagasse a lembrança de tudo que eles foram, que quando toca a música que era a deles seu coração ainda bate forte, e que ela nunca perdeu a esperança de que ele um dia aparecesse dizendo que foi tudo um grande erro, que queria ela de novo para sempre; como dizer isso a um homem que não vê há 20 anos?
    Não dá, simplesmente não dá.
    Quando esse encontro acontece e os dois vão, civilizadamente, tomar um vinho, a conversa pode ser perigosa, e é melhor que mintam e não mostrem fotos dos filhos. O que está feliz não fala, por delicadeza. E o outro, que não é infeliz nem feliz, também se cala. Problemas sentimentais podem ser contados a amigos, não a ex-amores.
    Mas tem pior. É quando ela reencontra esse homem que não vê há tanto tempo, esse homem por quem teria feito todas as loucuras, e não sente absolutamente nada. E pensa: "Como é que eu perdi tanto tempo com esse cara?" A autoindulgência a poupa de pensar "como eu era boba".
    Por essas razões e mais umas 500, é prudente deixar o passado em seu devido lugar; mas se acontecer um desses encontros e pintar a vontade de voltar no tempo, é melhor ser forte e resistir à tentação. Mesmo sofrendo, se for o caso.
    Em certas coisas não se deve mexer, e o passado é, decididamente, uma delas."

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