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Beto Colombo

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O Corpo e o Manto

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O Corpo e o Manto

Querido leitor, que você esteja bem. Proponho refletir hoje sobre a verdadeira nudez. Acessando ao site do amigo escritor e palestrante Ildo Meyer, deparei-me com alguns escritos interessantes. Refleti muito lendo artigos que ainda reverberam dentro de mim.

Mas tem um em especial que quero compartilhar com o meu leitor, com a minha leitora nesta oportunidade. Trata-se do conto do mestre zen budista e as suas vestimentas. Conta então o conto, que um famoso mestre zen budista havia sido convidado para uma festa, coisa totalmente possível para trazer para nossos dias, para nossa realidade. Conforme sua forma de viver, compareceu vestindo sua modesta roupa, gasta pelo tempo e mal cuidada, mas era ele quem estava ali, não era sua sombra ou quem ele gostaria de ser. Não o reconhecendo, pois todos estavam com roupa de gala, o anfitrião, o mesmo que o convidou, expulsou-o do local.

Diante do fato, então, o mestre voltou para casa. Trocou de roupa, vestiu um manto bordado com pedrarias e retornou para a festa. Desta vez foi reconhecido, exaltado e recebido com toda a pompa, assim como os demais convidados, e conduzido a um local especial reservado para autoridades.

Chegando ao local reservado, não hesitou: tirou seu manto e colocou-o cuidadosamente na cadeira, diante do espanto de todos os presentes, devidamente vestidos. “Não tenho dúvidas de que esperavam não por mim, mas pelo meu manto, já que não me deixaram entrar na primeira vez que vim”. Ato contínuo, nu e em silêncio, o mestre zen budista virou as costas e foi embora.

Parece até que deixamos de ser quem realmente somos para sermos fachada e, dessa forma, praticamente ninguém se expõe verdadeiramente estando nu. O cantor Ney Matogrosso confessou sentir-se muito mais envergonhado durante uma entrevista, onde se encontrava completamente vestido e revelando sua intimidade, do que cantando e rebolando seminu no palco, onde representava um personagem.

Em seu artigo, cujo título é “A Verdadeira Nudez”, Ildo Meyer pondera de que talvez a verdadeira excitação esteja, hoje em dia, em conseguir penetrar fachadas alheias e romper as próprias. Não é fácil, exige cuidado. Quando alguém nos abre a porta e permite ultrapassar as aparências, estamos pisando em local sagrado, no dizer de Emmanuel Lévinas. É preciso tirar os sapatos e estar ciente de nossa responsabilidade.

Portanto, finaliza Meyer, “para se mostrar por inteiro não é preciso ficar nu, é necessário despir a alma e se entregar. Sem medo de correr riscos, mostrar pequenos defeitos, contar segredos íntimos ou expor fraquezas”. Afinal de contas, vale a pena refletir. “Somos muito mais que fachadas. Reduzir-se a um simples manto ou nudez é uma evasão de si próprio, uma alienação de seu eu. Contraditórios ou não, somos uma pluralidade, um infinito a descobrir”. É não ver o que verdadeiramente é, é reduzir ao que se vê, ao explícito. Portanto, pode-se afirmar que “o manto é uma fachada, talvez uma metáfora”.

Quantos mantos precisamos vestir ao longo da existência? Provavelmente muitos. Alguns por vontade própria, é verdade, outros por imposição, não tem como ser diferente. Seja como for, é sempre bom lembrar, os trajamos. Mas, também é bom que se diga que depois de um tempo, os mantos podem colar no corpo e não se consegue mais retirá-los, nem mesmo viver sem eles. Outras vezes os mantos ganham vida própria e passam a ditar os trâmites de quem os usa.

É assim como também Ildo Meyer vê.

Beto Colombo

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6 Comentários para "O Corpo e o Manto"

  • Célia Costa Ferreira - 04/06/2012

    O Manto e o Corpo.
    Ao longo da existência vestimos muitos “mantos” que nos são colocados: vestidinhos de festa, trajes de primeira comunhão, longos de quinze anos, fantasias de Carnaval. Quando profissionais vestimos os uniformes, nos igualamos por fora. Alguns destes mantos nos são impostos ou os aceitamos, são mantos objetivos. Entretanto, existem muitos que nos são colocados sem mesmo sabermos. São os pré-juízos, adjetivos gratuitos, injúrias, calúnias invisíveis, ignorados porque são propriedade de outros que os atribuem sem a participação direta da pessoa, lógico. A conivência de algumas pessoas que contribuem com o silêncio cúmplice agrava a situação. A postura do sultão e de seus convivas citada no artigo de Colombo reflete, para mim, os pré-juízos que permeiam a sociedade. Estamos sujeitos a “mantos” inadequados que nos colocam sem nosso conhecimento e consentimento e que aderem ao corpo como carapaças psicológicas. A atuação do filósofo clínico pode ajudar o partilhante na superação dos efeitos causados na estrutura de pensamento do mesmo, sendo este terapeuta um responsável pela minimização do uso deste tópico nos espaços de sua atuação. Assim é para mim, se entendi.

  • Jô Lopes - 02/06/2012

    Bom Beto,querido..!
    É penso que cada um deve se perceber,para saber o que realmente estamos vestindo,o nosso corpo,a nossa vida.As vestes que usamos têm a ver com a nossa identidade,personalidade ou se é para agradar os olhares e julgamento dos outros?
    Abraços fraternos

  • ROSANA ALVES PAULINO - 30/05/2012

    É sempre assim q as pessoas nos olha, não olha nosso carater e sim se tem bens .....eu achei esse texto muito sábio parabéns....

  • Tiago Duminelli - 30/05/2012

    Excelente.

  • Cesar Paludo - 30/05/2012

    Amigo Beto. Apenas um simples comentário: O Ney Matogrosso repsenta um personagem quando dá entrevista e não quando rebola no palco, aí é ele mesmo, autêntico. Forte abraço,

  • Ildo Meyer - 30/05/2012

    Grande amigo Beto:
    Quanta honra ser citado em seu site. Acompanho diáriamente e também aprendo muito com suas idéias.
    Estamos juntos.
    Abraço filosófico

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