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Beto Colombo

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O Ópio do Povo

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O Ópio do Povo

Queridos leitores. Há um texto no livro Capital, de Carl Marx, que diz: “O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo expressão de um sofrimento real e um protesto contra um sofrimento real. Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito (...) a religião é o ópio do povo”.

Para mim um pecado do nosso tempo é julgar o passado no presente, fora da época, fora daquele contexto. E ainda penso que cada um de nós vai dar sua interpretação conforme a sua vontade e representação (Schopenhauer), uns para o que lhe convier, outros para justificar sua situação momentânea, assim por diante. Comigo não será diferente.

Minha interpretação desse texto escrito é que a intenção de Marx não era de atacar o clero e muito menos ir contra os teólogos da época, a discórdia de Marx era com filósofos hegelianos de esquerda. Estes pregavam que a sociedade deveria passar por uma transformação radical, e a solução para esta transformação era atacar a grande culpada de todas as desgraças sociais de então, que para eles era a igreja e desejavam estabelecer um programa educativo com o objetivo de fazer com que as pessoas abandonassem as ilusões religiosas. Marx, a meu ver, jamais aceitou essa teoria. Para Marx, a religião não tinha culpa alguma. A religião não era culpada pela simples razão que ela não fazia diferença alguma, ela não era causa e sim um sintoma apenas. Lembrando que essa é a minha interpretação.

Para Marx, não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. As religiões da época nada mais eram que efeitos que a sociedade criava e que apareciam depois que as coisas aconteciam.
Os homens são produtos de suas concepções. “É o homem que faz a religião, a religião não faz o homem”. Numa linguagem mais popular, é o fogo que faz a fumaça, a fumaça não faz o fogo.

Assim como não se apaga o fogo assoprando a fumaça, para Marx também é inútil tentar mudar as condições de vida pela crítica da religião. E o fogo de onde sai a fumaça, para Marx era o capitalismo, a religião era sim a esperança do povo.

Alguns crentes da época e de hoje acreditam e se conformam que o sofrimento é uma provação divina, que é a vontade de Deus, e o dever de todo crente é aceitar, pois tudo isso é mistério de desígnio. O sofrimento é necessário e precisa ser suportado com paciência na esperança da salvação eterna. “Salve tua Alma”, era a frase na frente de muitas igrejas. E é por isso que a religião para Marx é o ópio do povo, ou seja, “a felicidade ilusória do povo”.

Talvez Émile Durkheim (1858 – 1917), filósofo francês, de outro jeito mais sintético expressa o que Marx escreveu. “Não existe religião alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de forma diferente, as condições dadas da existência humana”.

Para Marx, a religião só existe numa situação de alienação, se não houver opressores as religiões também desaparecerão. Para ele, a religião é fruto da alienação e não causa de alienação.

É assim que eu interpreto Marx hoje e é assim como o mundo me parece hoje. E para você, a religião é o ópio do povo?

Beto Colombo

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