Ir direto para o Conteúdo

Beto Colombo

Artigos

O Ouvir do Silêncio

Deixe um comentário

Há ruídos que não se ouve mais. O apito dos guardas noturnos, o crepitar das fogueiras, a gaitinha do afiador de facas, o chiar da chaleira no fogão a lenha de minha mãe, a matraca do vendedor de cartuchos, o quebrar da geada nos potreiros das manhãs geladas de julho, o canto do galo nas madrugadas da Sexta-Feira Santa, o apito do trem das 7 horas...

Todos esses ruídos apenas rompiam o silêncio de antigamente. Hoje, o que mais desejo, é de silêncio que interrompa o ruído.

O tempo foi passando e outros ruídos foram se inserindo em nosso mundo. O ruído inconfundível do seletor de canal, a voz do repórter Esso, a sirene das 11 horas da mina de carvão, o barulho estridente do passar do Decavê, o som das cantigas de roda que fazíamos com nossas primas, dos estouros irritantes das bombinhas de 500 em festas juninas, do ruído do motor do Gordini, das doces vozes do coral nas apresentações no coreto nas praças, a música de Tonico e Tinoco nas manhãs de domingo, a descarga aberta das motocicletas, dos esmerilhos das fábricas, até chegamos às VUVUZELAS da África do Sul.

Os últimos 40 anos foram de uma explosão descomunal, de novas ideias, novas ações, períodos de inovações, de criatividade, de crescimento e nos tornamos criaturas barulhentas.

Sábado eu e a Albany fomos num Shopping Center em Florianópolis onde as garagens ficam no ultimo andar e, ao entrarmos, foi como entrar numa colmeia de abelhas, tamanho o ruído. Mas minha maior surpresa foi quando fui pela primeira vez no Corcovado (RJ), o ruído é coisa impressionante, eu não conseguia entender de onde vinha tanto ruído, é inacreditável. Como será que eu reagiria aquele ruído ensurdecedor nos estádios da copa da África do Sul?

Como gosto de ouvir o silêncio... Ás vezes vou para a Chácara da Lagoa somente para ouvir o silêncio. Ultimamente não tenho conseguido, até lá o barulho dos sons dos tocadores de CD´s dos automóveis têm quebrado aquele paraíso silencioso. Será que temos medo do silêncio?

Ano passado emprestei o chalé para um colega que precisava se concentrar no seu trabalho de mestrado e pediu para se hospedar por três dias. Foi sem seu automóvel, pois pretendia se isolar do mundo e temia que se fosse com seu automóvel ele retornaria. Não adiantou, na madrugada do dia seguinte ele me ligou desesperado pedindo para buscá-lo: “Por favor, venha me buscar, pois eu não me suporto mais”, dizia-me ele ao telefone. 

Parece-me que o silêncio se tornou um vácuo que o homem abomina. Diz-se que antes de existir o ruído havia sons, som é diferente de ruído. No silêncio ouvimos o som do mundo. Será que o silêncio é apenas a ausência de ruídos? Você já percebeu que o homem moderno começa seu dia com o “som” do rádio despertador, usa CD’s e rádio nos automóveis, ouve “música de ambiente” no escritório e termina o dia com o ruído da TV em casa? E ainda é capaz de dormir ouvindo buzinas de automóveis da avenida próxima e o ladrar dos cães nas noites, que para alguns são intermináveis. No Caminho de Santiago de Compostela, um peregrino me disse que estava com dificuldades de dormir, pois só conseguia dormir com o ruído do ar condicionado.

Os sábios de antigamente costumavam se fazer a seguinte pergunta: “Se uma árvore cai na floresta, fará algum ruído se não houver ninguém para ouvi-la?” Será que o homem moderno faz tanto barulho apenas para ter certeza que ele está ali? Será que os Sul-Africanos e suas vuvuzelas estão dizendo “Ei mundo, nós existimos”.  Há um pensador suíço que afirmava isso: “Os homens fazem barulho para ter certeza que existem”.

Perguntei para um colega de trabalho hospedado no chalé da lagoa. “Por que você liga o rádio tão alto?” E a resposta foi: “É que quando fico sozinho eu gosto de som alto, acalma minha solidão”. Talvez para algumas pessoas o ruído é como uma droga acústica usada como calmante. Que coisa não? Como somos barulhentos!

Para mim, quando preciso me acalmar, lembro de uma passagem no livro dos salmos de Davi escrito quando pastorava ovelhas nos Ermos lugares da Mesopotânia: “Aquietai-vos e sabeis que eu sou Deus”. E para aquietar meu coração, o acalento é fugir do ruído do mundo moderno. Ali ao ouvir o silêncio, aquieto meu coração e me apaziguo.
Isso é assim para mim. E você, se acalma como?

Estamos juntos
Beto Colombo
 
_____________________________________________________________________________________________________________
Artigo publicado no Jornal A Tribuna em 17/06/2010.

Voltar para artigos

Deixe um comentário

Anjo Tintas e Solventes

Beto Colombo ©. Todos os direitos reservados

Desenvolvimento Burn web.studio
Carregando Dados...