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Beto Colombo

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Quem Somos Nós

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Quem Somos Nós

Querido leitor, que você esteja em paz. Nosso artigo hoje é sobre uma questão que atravessa gerações e chega a nossos dias sem uma resposta conclusiva: Quem somos nós? Trazendo para a primeira pessoa do singular, pode-se perguntar: quem sou eu? 

Quantos de nós pensamos que somos a nossa profissão? Eu sou padre, pedreiro, advogado, jornalista, médico, carpinteiro, enfim, ele fala que é aquilo que faz profissionalmente. Talvez, pior do que isso é nunca sair do salto ou deixar esse papel nem que seja por alguns momentos. 

O professor, por exemplo, deixa de ser aluno e aprender, pois se fecha no papel de ensinar e não se abre para aprender. O empresário trabalha o tempo todo em que está em vigília e continua na sua função mesmo quando dorme. 

Lembro-me que recentemente, em um sábado final da tarde, estava caminhando na beira-mar, em Florianópolis, quando encontro a paisagista que contratamos para nos ajudar a embelezar nossa casa. Insensível, ela veio ao meu encontro e logo começou a falar de trabalho. “Quero tua permissão para trocar aquelas mudas de rosas, pois elas são sazonais, quero trocá-las por perenes”, comentou. “O que estás dizendo?”, perguntei. Ela meio sem entender, repetiu a frase, coisa que também fiz: “O que estás dizendo?” 

Era meu jeito de dizer que estava ali caminhando, descontraindo, encontrando amigos e falando sobre outros temas, outros assuntos. A questão do jardim, que não era emergente, poderia ser deixada para o momento certo, a oportunidade correta. 

Quem sou eu? Quem somos nós? 

Aprofundando um pouco mais esse tema, lembro do Padre Edson que recentemente estudou Filosofia Clínica com um grupo e brasileiros na Universidade Hebraica, de Jerusalém, em Israel. Durante todo o tempo estava entre nós debatendo, discutindo, defendendo seu ponto de vista e ouvindo atentamente o dos outros. Já no final dos estudos, em Jafa, reza uma missa para todos e, de viva voz, agradece a cada um por não tê-lo visto como padre. “Quero agradecer vocês por não me reduzirem a um padre e terem me dado a oportunidade de me apresentar como eu sou, não só como padre, mas também”. 

Esse bonito exemplo do padre Edson nos remete a uma reflexão profunda, já que muitos de nós, em alguns casos, se fixam em seus papéis, se identificam com eles e não conseguem beber em outras fontes, estudar outros conhecimentos, conhecer outras verdades. Ao contrário do padre Edson, existem pessoas que às vezes até exigem que o outro os veja somente daquela única forma. Como diz o filósofo Karl Marx, de manhã sou pescador, a tarde agricultor e a noite poeta, sem ser unicamente pescador, agricultor e poeta. 

Quem somos nós, afinal? 

O outro, é possível, seja muito mais aqueles que não se apresenta, que está encoberto, do que aquele que faz questão de ser, de se apresentar em curriculum intermináveis, cursos e diplomas. Talvez seja isso: quando nos reduzimos a um único papel, quando deixamos de nos ver de forma inteira e pluralista, corremos o risco de nos perdemos. Nós somos muito mais que o nosso papel, às vezes único papel, como médico, pedreiro, dentista, carpinteiro, advogado, empresário. Eu sou muito mais. Nós somos muito mais. 

É assim como o mundo me parece hoje. E você, qual resposta daria a pergunta “quem sou eu”?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 11/2012 e no Jornal A Tribuna no dia 12/04/2012.

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1 Comentários para "Quem Somos Nós"

  • Sofia - 24/04/2012

    Em geral gosto muito de seus artigos, são sempre assuntos interessantes. Esse não é diferente, porém tenho uma objeção. Para mim não combina com você chamar a atenção, usando um meio de comunicação, de uma pessoa que muito provavelmente quis lhe agradar. Não faço idéia de quem seja, essa profissional, mas tenho certeza que sendo você uma pessoa conhecida na cidade, muitos devem saber de quem você estava falando. Confesso que me coloquei no lugar dessa paisagista e acredito que ela deva ter se sentido extremamente envergonhada. Acho interessante, antes de comentar sobre o outro, fazermos a pergunta " e se fosse comigo?" É assim que penso e você o que acha disso?

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