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Beto Colombo

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Religiosidade ou Espiritualidade

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“Imagine que não há paraíso, nenhum inferno abaixo de nós, e acima de nós apenas o céu, imagine todas as pessoas vivendo para o hoje. Imagine não existir religiões, países, nada pelo que lutar ou morrer, imagine todas as pessoas vivendo em paz...” Para mim isso é um muito mais que uma música de John Lennon...

Quantas “guerras santas” (existe guerra santa?)... Provavelmente matou-se mais em nome de Deus do que qualquer outro motivo; quantas ideologias religiosas que serviram e servem de estopim para separar, distanciar pessoas somente por ter um credo diferente.

Veja esse episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral, para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos.
Criticado, como os demais do grupo resistente, Robinho exigiu: "é preciso que respeitem a religião da gente".

Ed René Kivitz é teólogo, mestre, escritor e pastor. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, evangélico e santista desde pequenino. Fez as seguintes ponderações:
 “Os meninos da Vila pisaram na bola, mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos, fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros, por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião”. E continua dizendo ele que “a religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais da Bíblia e de cada uma das tradições de fé”. 

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra a prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. 

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica ou católica, você está discutindo religião. 

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. 

E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus. 

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. 

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar - você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

Estou relatando um fato concreto acontecido dias atrás, triste é saber pela história que isso se repete por séculos e séculos da humanidade.

Às vezes fico pensando quais as razões que fazem os homens construir os mundos imaginários da religião. Se somos animais, porque então criamos as religiões e aí caímos nas armadilhas da neurose e da angústia?

Criamos as religiões e por intermédio delas, valores, mandamentos, dogmas, leis que nos proíbem, que castram nossos desejos, vontades. É como no dizer de Roberto Carlos. “Tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda”.

Talvez tenha razão Freud, ao expressa que a intenção de que fôssemos felizes não se acha inscrita no plano da criação. 

Envelhecemos, adoecemos, sentimos dores, nossos corpos se tornam flácidos, a beleza se vai, os órgãos sexuais não mais respondem aos estímulos do odor, da vista, do tato e a morte se aproxima inexorável. Não há desejo que possa alterar o caminhar do princípio da realidade.

Provavelmente criamos a religião por sermos o único animal que sabe que vai morrer. E em meio a essa situação sem saída, a imaginação cria mecanismos de consolo e fuga por meio dos quais o homem pretende encontrar, na fantasia, o prazer que a realidade lhe nega. Evidentemente, nada mais que ilusões e narcóticos destinados a tornar nosso dia-a-dia menos miserável. E o que têm feito algumas de nossas atuais religiões se não explorar ainda mais o pobre e já oprimido povo?

Lembro-me dos escritos do Profeta Ezequiel: “Eles enganam meu povo dizendo que tudo vai bem quando nada vai bem. Pretendem esconder as rachaduras na parede com uma mão de cal...”. (Ez: 13,10). Ele diz isso alertando o povo oprimido quando explorado pelas Religiões/Estados que usavam os símbolos sagrados para uso econômico. Será que algumas de nossas religiões são sucessoras do Deus dos Profetas? 

Sobre guerras santas, opressão, comércio da fé... Penso que muito depende daqueles que manipulam os símbolos sagrados. A religião pode ser usada para iluminar ou para cegar, para libertar ou escravizar, e a Bíblia se referia a esse Deus de o Deus dos oprimidos. “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo por causa dos seus opressores”. (Êxodo: 3,7). Assim era o Deus e a religião dos antigos profetas.

E o que se tornaram algumas de nossas religiões se não apenas negócios? E você que continua pregando placa de igrejas já refletiu a respeito de religiosidade e espiritualidade?
Lembre-se que isso é assim para mim.

Estamos juntos
Beto Colombo
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Artigo publicado no Jornal A Tribuna em 01/07/2010.

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