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Beto Colombo

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Sair do Inferno

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Sair do Inferno

Querido leitor, que você esteja bem. Hoje nosso tema é um poema épico, escrito no século XIV por Dante Alighieri. Falo de “A Divina Comédia”. Escrita em italiano, A Divina Comédia é um poema narrativo rigorosamente simétrico e planejado que narra uma odisseia por três mundos: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Em cada etapa dessa “viagem”, o autor descreve com detalhes quase visuais. Dante, o personagem, é guiado pelo inferno e purgatório pelo poeta romano Virgílio, e no céu por Beatriz, musa em várias de suas obras.

Aqui, neste artigo, vamos nos ater mais quando Dante é conduzido por Virgílio ao inferno.

Antes disso, vale lembrar que quando Dante se encontra no meio da vida, ele se vê perdido em uma floresta escura, ou seja, na floresta do pecado e por isso sua vida havia deixado de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio - poeta da antiguidade que ele admira - disposto a guiá-lo por um caminho alternativo. Virgílio, no livro, representa a razão e só a razão poderá tirá-lo do inferno.

Virgílio foi chamado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que o viu em apuros e decidiu ajudá-lo. Ela desceu do céu e foi buscar Virgílio no Limbo. O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio guiaria Dante até as portas do céu. Lembrando que Virgílio não entra no céu.

Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas.

Mas antes disso, Dante e Virgílio encontram uma porta onde o poeta da antiguidade resolve aguardar Dante ainda na porta de entrada.

- “Não vais entrar?”, pergunta Dante.

- “Não”, respondeu Virgílio. “Vou ficar aqui te esperando. Pode ser que possamos gostar e alguém tem que resgatar o outro das profundezas”.

Aqui, justamente nessa passagem que quero me ater um pouco mais, pois todos estamos sujeitos a entrar num erro, num equívoco, numa porta errada e depois de estar lá dentro, nos vermos tão envolvidos que sequer imaginamos o equívoco. São as empresas quebradas, falidas; as amizades desfeitas por picuinhas, as separações precipitadas. Nestes momentos é importante que alguém mais sóbrio, um profissional, um amigo, esteja atento para nos cutucar. Mas, é claro, também teremos que estar abertos para ouvir, refletir e decidir por sair daquele ambiente doentio.

É comum ouvirmos: “Depois que deixei o tal emprego, nenhum dos meus colegas veio me ver”, ou “após minha separação, até os amigos me abandonaram”. Enfim, a pergunta correta seria: Quem abandonou quem? Foram os colegas, os amigos que abandonaram, ou foi ele que entrou em uma porta diferente, gostou e ali ficou? Agindo assim, não foi ele quem abandonou a vida anterior, incluindo os amigos?

Querido leitor, quando entramos nas profundezas da nossa alma, na escuridão de nosso ser, na sombra da nossa existência, como fazemos para sermos resgatados? Como deixamos este inferno? Seremos resgatados pela razão como na Divina Comédia? A resposta está na vizinhança. Vizinhança, aqui, pode ser um bom filme, um bom amigo, uma boa garrafa de vinho com aquela música e letra gostosa. Para cada um pode ser diferente. Eu tenho uma forma. Ontem, por exemplo, acordei me sentido down, com uma certa distimia. Poderia me entregar pra ela e, assim, passar um dia pra baixo. Foi quando lembrei que caminhar me faz alegrar, me eleva. Não deu outra: amarrei uma mochila pequena com água e frutas, vesti uma roupa confortável, calcei um tênis e fui caminhar. Poucas horas depois já havia encontrando a porta que me trouxe de volta.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que faz para ser resgatado quando não está bem?

Beto Colombo

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4 Comentários para "Sair do Inferno"

  • Jô Lopes - 25/04/2014

    Olá, Beto querido...!
    O que eu faço para ser resgatada quando não estou bem...gosto de optar pelo vizinho mais coerente com o momento ou a situação.Exemplo,quando não me sinto bem por estar melancólica,ouço música que me trazem boas recordações,quando estou estressada vou nadar na piscina,quando estou preocupada por um filho ou o marido ou um amigo doente rezo.E assim, vou lidando com as coisas da vida ajudada pelos meus vizinhos...Abraços Jô

  • tiago duminelli - 15/01/2013

    Penso que escolhemos os caminhos que desejamos seguir e muitos escolhem o lado errado e nao conseguem enxergar isso, e quando enxergam nao conseguem mais voltar sozinhos, por isso usamos maneiras para nos sentirmos bem, mais vale chegar uma hora mais tarde no trabalho e com a cabeça em bom estado, do que trabalhar sem poder utilizar a inteligencia e a criatividade.

    Abraçosss, e deseo que todos em 2013, acertem as portas por onde entraram.

  • Adauton Luiz Deolindo - 04/04/2012

    Muito bem Beto, as portas de nossas vidas são muito importantes, mais importante ainda são as Chaves que podem ficar com a gente ou com quem confiamos para abri-las ou não e nos deixar passar com segurança de sempre voltar..

  • Joao Batista - 03/04/2012

    Caro Beto,

    Penso que o movimento é uma sutil e imperceptível condição para a vida humana. Só há vida em movimento, ciclos (incluindo o nascimento e morte). Entendo que dar o primeiro passo, andar, é a saída para todos os males da alma! Os problemas que criamos são temporais e geográficos, quando nos deslocamos, seja no tempo, seja no espaço, eles ficam para trás.Percebe-se alegrias nas pessoas quando elas viajam, talvez seja por esse motivo. Assim, gastar tempo caminhando entendo ser o melhor remédio para a ansiedade! Pessoalmente adoro correr nos parques, à Beira Mar e, principalmente nas praias longas de mar aberto, a exemplos das nossas da região sul.

    Abs,

    Joao Batista

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