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Beto Colombo

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Servidão Voluntária

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Querido leitor, que você esteja bem e em paz! Nosso tema hoje é sobre servidão voluntária, oportuna discussão em um ano eleitoral instigada pelo amigo Zico. 

Em 1548, com apenas 18 anos de idade, o francês Étienne de La Boétie escreveu seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, um texto instigante e corajoso, no qual sustenta a tese de que os escravos são servos por opção. La Boétie, que foi amigo de Montaigne, foi um dos primeiros a perceber que os governados eram sempre maioria em relação aos governantes, e que, por conta disso, algum grau de consentimento deveria existir para manter a situação de servidão. O livro, portanto, é uma leitura importante nos dias atuais também, onde governos democráticos avançam sobre as liberdades mais básicas dos indivíduos. 

La Boétie via no direito natural do homem aquilo que ele tem de mais caro e compreendia que “não nascemos apenas na posse de nossa liberdade, mas com a incumbência de defendê-la”. No entanto, ele constatou que o povo estava quase sempre inclinado a abandonar esse direito, em troca de alguma sensação de segurança. 

O que então explicaria essa servidão consentida? Para La Boétie, “todos os homens, enquanto têm qualquer coisa de homem, antes de se deixarem sujeitar, é preciso, de duas, uma: que sejam forçados ou enganados”. Ele parte então para a tese de que, no início, o homem serve vencido pela força, mas que depois serve voluntariamente, enquanto seus antecessores haviam feito por opressão. 

Sem terem experimentado a liberdade, esses homens acabam escravos pelo costume. La Boétie, antecipando David Hume e Franz Oppenheimer, conclui: “É assim que os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e educados na servidão, sem olhar para a frente, contentam-se em viver como nasceram, sem pensar em ter outro bem, nem outro direito senão o que encontraram, tomando como natural sua condição de nascença”. 

Além das distrações e das migalhas, os tiranos precisam oferecer uma rede de favores, criando cargos para sustentar a tirania com mais aliados. A lista de oportunistas batendo à porta do governo para trocar liberdade por verbas seria infindável. Desde artistas engajados, intelectuais, funcionários públicos, invasores de propriedade, até líderes do “terceiro setor” ou mesmo empresários, todos em busca de uma teta estatal para mamar. Os tiranos compram assim o apoio à tirania. “Em suma”, conclui La Boétie, “que se consigam, pelos favores ou sub-favores, que se encontrem, enfim, quase tantas pessoas às quais a tirania pareça lucrativa, como aqueles a quem a liberdade seria agradável”. 

Essa troca da liberdade por favores seria trágica por si só, pelo valor intrínseco que tem a liberdade. Mas, não obstante, La Boétie questiona que tipo de vida esses “escravos voluntários” levam, concluindo que não pode ser uma vida feliz. Ele pergunta: “Qual condição é mais miserável do que viver assim, sem nada ter de seu, recebendo de outrem satisfação, liberdade, corpo e vida?” Além disso, La Boétie afirma que a amizade verdadeira é impossível nesse contexto de tirania. Ela, afinal, “só se encontra entre pessoas de bem e só existe por mútua estima; mantém-se não tanto por benefícios, senão por uma vida boa”. E acrescenta: “O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento que tem de sua integridade”, lembrando que “entre os maus, quando se reúnem, há uma conspiração, não mais uma companhia; não se amam mais uns aos outros, mas se temem; não são mais amigos, mas cúmplices”. Alguém poderia ter alguma dúvida da verdade dessas palavras observando o comportamento dos aliados do governo brasileiro atual? São todos cúmplices de um projeto de poder; não amigos. 

Em resumo, as palavras escritas por um jovem culto de 18 anos na França, há quase cinco séculos, ainda ecoam como verdade nos dias atuais. O povo parece não aprender a lição, construindo sua própria prisão. Nasce escravo, vive na ignorância e não ousa desafiar seu senhor, questionando sua legitimidade. Aceita passivamente seus grilhões, que até ajuda a colocar. Enquanto os animais na natureza lutam desesperadamente contra seu domínio, o homem, justo o animal com maior capacidade de ser livre, acaba se submetendo passivamente à servidão. Enquanto uma grande quantidade de pessoas estiver disposta a sacrificar a liberdade em troca de algumas migalhas e uma falsa sensação de segurança, conviveremos com a escravidão. 

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a servidão voluntária? 
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 12/04/2012 e no Jornal A Tribuna no dia 13/04/2012.

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3 Comentários para "Servidão Voluntária"

  • Ivanete March - 18/04/2012

    Minha opinião é de que ambos precisariam associar-se nos princípios morais; éticos. Exigindo-se entre ambas as partes a moralidade, no que diz de fato ao respeito humano, a liberdade de expressão, a inteiração mútua para o bem estar da população (maioria), onde quer que seja. Completando-se a interação social e integração humana. Sem isso o muito(nós cidadãos escravizados ou enganados como quer que seja), sempre seremos poucos em todos os aspectos citados. Triste se essa for a opção, pois ainda somos a maioria. Sendo assim, servindo-se "voluntariamente" a quê, pra quem?

  • Betinho Gaúcho - 14/04/2012

    Sr. Beto Colombo,
    Primeiramente, parabéns pelo texto. Gostei. Mas penso que, para os dias atuais, o título deveria ser "Parasitismo usurário".
    Esta relação biológica entre duas espécies ( os governantes, que, via de regra, encarnam o próprio Estado e agem como se ele fosse, e os oportunistas), onde o parasita vive às custas do hospedeiro, prejudicando a sua vida. Mas, diferentemente do que ocorre na natureza, o "parasitismo usurário" se dá por cooptação. Ou seja,; O 'hospedeiro' oferece uma rede de favores, como diz o texto, para cooptar o 'parasita', e, assim, numa relação simbiótica, ambos tirar vantagens desta usura!!! ( se é que assim me explico?!).
    Não podemos falar, portanto, de servidão voluntária e, sim, de conluios, de conspiração e cumplicidade...
    Será que este jovem Étienne, já naquela época, num exercício de 'futurologia', estava antevendo a Içara/SC do início do Séc. XXI?! Ou seria o Brasil como um todo, ao observarmos o comportamento dos 'aliados' do governo atual, como tu bem colocas no final do texto???!!!
    Finalizo, parafraseando a Vânia: "Ninguém é voluntariamente servo" Sr. Beto Colombo!!! Um forte abraço, tchê!!!

  • vania burigo - 12/04/2012

    Beto, como diz o próprio texto:
    "todos os homens, enquanto têm qualquer coisa de homem, antes de se deixarem sujeitar, é preciso, de duas, uma: que sejam forçados ou enganados”.
    Na minha opinião,não existe servidão voluntária, existe opressão pela força ou pela necessidade de sobrevivencia ( pobres brasileiros) pela ignorância dos fatos( alienação), pela propaganda (engano).
    Ninguém é voluntáriamente servo.
    Vania

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