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Beto Colombo

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Aquela água da torneira clorificada torna-se benta se colocada num cântaro no altar da gruta, assim como a flor pode ser uma confissão de amor, ou até uma afirmação de saudade se jogada sobre uma sepultura. O fogo torna-se símbolo sagrado nas velas dos altares e nas piras olímpicas.

Rubem Alves, no livro O Que é Religião, com sabedoria diz que há coisas que significam outras, são as coisas/símbolos. “Uma aliança significa casamento; uma cédula significa um valor; uma afirmação significa um estado de coisas além dela mesma.”

E se alguém simplesmente usar uma aliança na mão esquerda sem ser casado? Uma cédula pode ser falsa. Uma afirmação pode ser uma mentira. Por isso, quando nos defrontamos com as coisas que significam outras coisas é inevitável que levantemos perguntas acerca de sua verdade ou falsidade.

Aquela fonte no morro, que era apenas uma bica d’água, tornou-se um lugar de peregrinação porque aquela gruta construída deu um novo significado e a água que brota dela agora é benta e cura gastrite, reumatismo e faz milagres.

Fui à casa de um bom amigo e encontrei um antigo altar da igreja de Santo Agostinho que outrora era a mesa de celebração da Eucaristia nas missas dos domingos, onde o vinho transformava-se em sangue de Cristo e o pão no corpo de Cristo, e agora é apenas uma mesa de jantar de sua família.

Quando um artista pinta um quadro, ele está dando o seu significado àquela pintura. Outra pessoa que nada sabe sobre aquele artista dará a sua interpretação conforme o acervo agendado no seu intelecto, na sua estrutura de pensamento.

Um beijo dado por Maria em Jesus Cristo provavelmente é amor e carinho, agora um beijo dado por Judas significa outra coisa.

Algumas vezes nos deparamos com palavras de alguém que fala e o interpretamos dando o nosso significado àquela situação sem dar a chance dele colocar “a sua verdade”, apenas julgamos e condenamos como se fôssemos juízes: isso é verdade, isso é mentira. Verdade pra quem? E mentira pra quem? Aquela verdade pode ser a interpretação da minha verdade.

Algumas vezes, antes mesmo de ouvir o outro, antes de prestar atenção naquilo que ele está dizendo, apenas estamos ouvindo nossos pensamentos para formularmos o que vamos dizer em seguida. Será que estamos ouvindo o que o outro fala ou apenas o que estamos sentindo e significando conforme nossa estrutura de pensamento? Às vezes nós transformamos o que o outro está falando conforme nosso significado em objeto de concordância ou discordância. Tenho aprendido que é preciso manter-se a literalidade do falante, limpando a mente de todos os ruídos e interferências durante a fala alheia. Exercitar o ouvido atento, ouvir o outro sem oferecer julgamento, sem significar, apenas entregar-se ao outro e diluir-se nele. No início da minha prática como terapeuta em consultório esse foi um grande desafio, não foi fácil, mas hoje sei que é necessário e possível.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, tem exercitado o ouvido atento?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 08/09/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 09/09/2011.
Leia novos artigos nesse espaço a partir de março de 2012.
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