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Beto Colombo

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Uma Página em Branco

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“O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”, Albert Camus.

Quando meus filhos eram crianças eu assisti  Castelo Ra-tim-bum, onde o garoto Stradivarius recebe um livro em branco e irá usar sua imaginação para escrever sua história, suas magias.

Há um filósofo brasileiro que eu admiro muito que se chama Rubem Alves. Para mim, uma de suas maiores obras é o livro “O que é Religião”?. Que trata também desse assunto.

Vamos ao assunto:

“Então a vespa caçadora sai em busca de uma aranha, luta com ela, pica-a, paralisa-a, arrastando-a então para seu ninho. Ali deposita seus ovos e morre. Tempos depois, as larvas nascerão e se alimentarão da carne fresca da aranha imóvel. Crescerão e sem haver tomado lições ou frequentado escolas, um dia ouvirão a voz silenciosa da sabedoria que habita seus corpos há milhares de anos:” chegou a hora, é necessário buscar uma aranha”.

Os pintassilvos cantam hoje como cantavam no passado. As colméias das abelhas, os joões-de-barro, não sei de alteração alguma para melhor ou para pior que tenham introduzido no plano de suas casas e tem sido assim há centenas de milhares de anos.

Como são diferentes as coisas para o homem. Tomemos uma criança recém-nascida. Do ponto de vista genético, ela já se encontra totalmente determinada: cor da pele, dos olhos, tipo de sangue, sexo, suscetibilidade a enfermidades. Mas como será ela? Gostará de música? De que música? Que língua falará? E qual será seu estilo? Por quais ideias e valores lutará? E que coisas sairão de suas mãos? Será engenheiro, advogado, médico, arquiteto? Aqui os geneticistas, por maiores que sejam seus conhecimentos, terão de se calar.

Por que o homem diferente de todos os animais, que é seu corpo, tem seu corpo, não é o corpo que o faz. É ele que faz seu corpo.

O mundo humano, que é feito com trabalho e amor, é uma página em branco na sabedoria que nossos corpos herdam de nossos antepassados.

O fato é que os homens se recusam a ser aquilo que a semelhança dos animais, o passado lhes propunha, tornando-se inventores de mundos. E plantaram jardins, fizeram choupanas, fizeram poemas, transformaram seus corpos, cobriram de tintas, metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras, construíram altares, enterraram seus mortos e os prepararam para viajar e, na sua ausência, entoaram lamentos pelos dias e pelas noites. Alguns adoram Deus, outros deuses e há aqueles que julgam ser ele o próprio Deus. 

Minha pergunta é: por que razão os homens fizeram tudo isso? Onde estava a flauta antes de ser inventada? E o jardim e as danças? E os quadros? Ausentes? Inexistentes. Nenhum conhecimento poderia jamais arrancá-los da natureza. Foi necessário que a imaginação ficasse grávida para que o mundo da cultura nascesse.

Os homens não vivem apenas só de pão, vivem também de seus símbolos, de suas invenções de seus sonhos e para muitos isso é que dá sentido à suas vidas.

E você, o que tem inventado ultimamente? 

Estamos juntos
Beto Colombo
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Artigo publicado no Jornal A Tribuna em 17/03/2010.

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