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Beto Colombo

Minhas Fotos

Espanha: Retornando ao Caminho

Em 2007 eu fiz o Caminho francês de Santiago de Compostela, foram cerca de 800 km de Roncesvalles a Santiago de Compostela e de Santiago de Compostela a Finisterre.
Nas proximidades de Ponferrada encontrei um espanhol de nome Matia que estava com a ponta do cajado dentro de uma corredeira de água e perguntei:
- O que estás a fazer, hombre?
- Estou dando de beber ao meu cajado, meu companheiro de sete caminhadas.
Fiquei curioso e perguntei ao Matia:
- O que te faz fazer o caminho pela sétima vez?
Respondeu o Matia:
- El camino és periculoso, como cocaína.
Quanto ao molhar o cajado, fui saber depois que o objetivo é para não rachar.
Eu, na época, não levei em consideração e achava que aquele caminho seria único, e realmente foi, aquele de 2007. Mas como Matia, o caminho me chamou de volta.
Dessa vez, minha companheira Albany mostrou-se muito interessada em fazer e sentir o que eu e o Manoel sentimos e relatamos no livro Compostela: Muito Além do Caminho de Santiago. E fomos.
Partimos dia 17 de maio e dessa vez decidimos fazer o caminho de León. Saímos de León rumo a Santiago de Compostela, 328 km caminhando e dali a Finisterre fomos de automóvel, mais 90 km. Em Finisterre queimamos as roupas que usamos no caminho, uma forma de ritual do recomeço, de renovação.
O caminho foi outro; como diz Heráclito, “não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, já que nem o rio nem quem nele se banha é o mesmo em dois momentos da existência. E realmente eu era outro, o tempo era outro, o caminho era outro. Desta vez as cerejas estavam maduras, no caminho havia muito mais flores do que a primeira vez e a temperatura muito mais agradável, afinal era primavera. Mas as experiências tão ou mais marcantes que o caminho de 2007, que foi único como esse também foi único. Foi um caminho de autoconhecimento, uma viagem interna do cérebro para o coração.
Como disse Sócrates “conhece-te a ti mesmo”, pudemos, eu e minha companheira, conhecermos um pouco mais de nós mesmos e do outro. Portas se abriram e pudemos sentir emoções tão fortes que nesses 25 anos de convivência não havíamos experimentado juntos.
Algumas pessoas me perguntaram. Já inventaram a bicicleta, o automóvel, trem, avião, por que caminha tanto?
E eu tenho respondido com dificuldades. Porque conhecer o caminho através da internet, livros, dá para ter uma noção próxima, mas viver o caminho somente dormindo em albergues, colocando uma mochila de 7 quilos nas costas e caminhando 25, 35 ou 42 km por dia, e quando as forças físicas já não correspondem mais, as emoções afloram, passamos a viver sentimentos desconhecidos que jamais sentiríamos em um automóvel. O caminho das coisas, da coisificação eu já conheço e passei mais de trinta anos na corrida do ouro; não é mais só atrás disso que estou. Minha busca hoje é também pelo sutil.
É como entrar na toca do coelho, entrar no desconhecido e submeter-se a isso. É emoção em cima de emoção. Quem dera se essas portas se abrissem para mim de novo, de novo e de novo. Muito agradecido caminho, por me revelar tantos sentimentos que eram desconhecidos por mim.

Eu sou Beto Colombo
E hoje acredito nisso.

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